Clarividência

O sujeito namora durante 4 anos, casa e é traído depois de 20 anos de companheirismo. Às vezes comemora as bodas de ouro sem saber da infidelidade, e ignorar até “faz bem”, como se diz no popular… Então ele abre uma sociedade comercial e descobre, depois de 10 anos, no enterro do antigo contador, em Santana do Livramento, que era roubado pelo sócio. Arruinado, acredita na teologia da prosperidade, bajula um pastor neopentecostal e só descobre desvios na igreja quando este é substituído e deixa o carro pastoral com IPVA atrasado há 4 anos, mesmo com 20 mil de dízimos por mês… 

Na esfera íntima, o moralista social é incapaz de ver ou prever o “caráter. Muitas vezes o óbvio não lhe causa a mínima suspeição… 

Mas em âmbito social, o mesmo sujeito diz que o político deve ser escolhido “PELO CARÁTER”. 

Atribui assim ao eleitor o poder da miraculosa “clarividência”, um fardo quase opressor. E é de se perguntar: o caráter, que na linguagem do salmista Davi é o “coração” – apenas por Deus sondável –, está assim tão claro na sociedade? Ora, mais ainda: na disputa de poder entre as diversas forças que buscam predomínio na política e sobre a política, há um confuso cipoal de informações redentoras de fulano, acusadores de beltrano, promotoras de cicrano… Tem qualquer viés prático o moralismo, quando absolutiza que o “caráter”?

– Mas, rapaz, você vota em político sem caráter?!?

Porra, Fernandinho, caráter ninguém vê escrito na cara. Se há desvio, coisa concreta, já então estamos falando de CONDUTA. E desvios de conduta, na esfera pública, têm previsão de persecução cível e penal. O que o cidadão deve buscar até no inferno é que a JUSTIÇA se realize. Então eu não se ficará a depender do milagre da clarividência, a métrica será apenas a reprovabilidade da CONDUTA.

O segundo aspecto a se abordar é o PRAGMATISMO. A sociedade tem necessidades materiais imediatas e irreversíveis, coisa que, satisfeitas, dispensam uma CCP (certidão de coração puro), expedida pelo Deus vivo. Quem tem fome tem pressa (Betinho); quem tem útero quer o papanicolau.

– Mas, rapaz, então você é adepto do ‘rouba-mas-faz’?!?

Porra, Fernandinho, volte alguns parágrafos. Senão bastar, volte algumas séries escolares.

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Pela ótica do menino Marx: POLICIAMENTO IDENTITÁRIO VERSUS LIBERDADE CRÍTICA

Humanos toleram feras em zoológicos e circos, cerceados por grades ou devidamente tolhidos em sua natureza espontânea, assim como a sociedade burguesa, materializada no oligopólio das mídias, só tolera artistas ‘domesticados’, controlados, especialmente os de tendência crítica, e mesmo os que tendem a moral(is) diversa(s) do tradicional.

Não por acaso, os que se manifestam sistematicamente contra a ordem dominante são alijados e relegados a um contingente afastado, como fosse num zoológico-de-talentos, vozes exóticas. É isso também vale para outros ramos da atividade humana, além da arte.

De regra, observo que o livre trânsito do artista entre palcos é comprado em troca de ele ceder-se ao controle e ao usufruto, como um chamariz do consumismo; consumismo de produtos, de padrões estéticos e comportamentais.

O artista não foge à regra da produtificação de tudo e da objetificação do homem pelo capital; ele e sua obra recebem embalagens e rótulos comercializáveis. Há mesmo aqueles que são descartados quando param de “vender”. O que significa dizer que esses artistas aprofundam-se no gosto do vulgo, na renúncia de certos aspectos originais, como prevenção da obsolescência.

Eis porque, por trás de uma pseudo-liberdade, “que vende”, que induz ao consumo, há uma prisão. Mesmo que a prisão não se veja no artista, pois ali há um simulacro de ampla liberdade. A prisão, comumente se concretiza projetada num difuso ‘gosto popular’, acolitado em corredores, como a rês que precisa passar ao alcance do machado fatal.

Em certo momento se estabelece um ciclo em que não se vislumbra mais, se a massa é submetida deliberadamente a obras de gosto duvidoso ou se é o gosto duvidoso do povo que exige das mídias a produção de conteúdo medíocre…

O povo está claramente preso a padrões artificiais de consumo. Comprova-se isso especialmente quando se considera que vivemos nem uma nação onde há 50 mil artistas, mas onde os meios de comunicação só reverberam incisivamente 50 deles. Quando se viaja, encontram-se talentos que se estranha estarem longe de uma plateia, e pensa-se ser um “desperdício de talento” — ouço isso muitas vezes de amigos.

A “prisão” está clara mais ainda nos que simetricamente aderem ao consumo sem o direito da reflexão sobre o poder/dever-ser, sem propriocepção, sem liberdade Real de escolha. Não digo aqui nada inovador, nada diferente daquilo que Saramago, conhecido comunista, inoculou em suas obras, sempre veiculadoras de críticas sutis, em favor da liberdade.

Com objetivo de alcançar alvos complexamente distintos, numa sociedade extremamente segmentada, não é inesperado que a publicidade — e mesmo o ‘jornalismo’ — irá buscar seus ‘artistas premiados’ nos chamados ‘guetos identitários’ (?). Mulheres, trans, gays, pretos, crianças, deficientes, “exemplos de superação”, “exemplos de mérito” etc., todos esses segmentos poderão se utilizados pelo ‘sistema’, para, por fim, garantir ao capitalista, financiador, que sua margarina e sua calça jeans serão vendidas tanto para silvícolas do Norte quanto para descendentes de Holandeses no Sul, tanto quanto para habitantes das periferias urbanas.

Os padrões de vestimenta, de consumo tecnológico devem chegar aos quatro cantos das culturas e das sub-identidades de cor, gênero, torcida, estilo etc etc. Por mais que haja margens excepcionais de espontaneidade nisso tudo, uma leve aplicação de Psicologia de Massas deixará ver os fluxos e contrafluxos de forças que movimentam a consumosfera.

Exponho tudo isso para dizer que estar lúcido e criticar os artistas que se constituem em verdadeiros instrumentos — fantoches e fetiches — da domesticação da massa não é pontualmente atacar a identidade do artista em si, embora esta separação do objeto criticado dependa da capacidade cognitiva de quem recebe e percebe a crítica e também da subjetiva boa fé do crítico.

Preocupa é que o extremismo dos dias atuais tende a nos fazer recuar em qualquer crítica mais global, numa espécie de polícia ideológica onipresente e onisciente, que reclama sempre o direito da parte, do segmento x e y, em detrimento de um método holístico de abordagem. Isso certamente nos levará a um empobrecimento dialético. A crítica ampla, já foi feita, por exemplo, por grandes críticos sociais da literatura — como Balzac, Machado de Assis, Alencar, Flaubert — sem que ela em si causa-se qualquer forma de violência prática.

A seguirmos assim, condenado a visão abrangente, esteremos a decretar a morte das próprias artes dramáticas e mesmo das demais outras linguagens que até agora escaparam do policiamento e dos zoológicos-de-talentos. ★

Armas ou 10% do PIB?

Até antes de uma inflexão capitalista, a mídia busca resultados econômicos, (apenas) para financiar seu interesse na comunicação social. “Nada mais justo e necessário” – diz o homem comum.

Depois da inflexão capitalista, a mídia emprega a aparência de interesse social, (apenas) para sustentar sua finalidade, que já então é essencialmente lucrativa. 

E depois de empregar por longo período a estratégia do simulacro social, a mídia já compõe a superestrutura do poder politico-capitalista. Então ela substitui o poder de milhões de eleitores, mesmo que eles votem como robôs tracionados pelas paixões lançadas ao ar diuturnamente.
Temos um império de “empresas de comunicação” e empresa visa ao lucro; isso fere a Constituição, mas quem se importa? Inclusive, o império revoga tacitamente o dispositivo constitucional que o limita e impede ser regulamentado pelos governos ou ser enquadrado pelos tribunais, desde sempre.
O argumento para resistir ao óbvio também parece “justo e necessário” ao homem comum: “precisamos defender a liberdade de imprensa, o direito popular à informação” etc.

Vide que as mídias (que incluem a imprensa) então ignoram e ocultam a inflexão econômica que as orienta: dotadas de um volume de capital em plena expansão, os capitalistas controladores das empresas almejam avidamente pelo protecionismo e pela multiplicação da riqueza; interesses populares e nacionais são secundários, usados como um eficiente estratagema, quando interessa…

Tudo parece óbvio, mas há sedativos na tevê…

Nesta fase, a imprensa há muito não é mais ‘resultado’ do interesse da maioria pela democracia. Pelo contrário: a democracia, artificial como se mostra, ela mesma é ‘produto’ de uma formulação exótica dos grupos econômicos que dominam o grande conglomerado midiático, uma força antropofágica descomunal.

É paradigma liberal clássico que as empresas devem ‘produzir’, enquanto o Estado deve apenas ‘regular’. Pois bem: a imprensa, principal instrumento da comunicação, só produz uma coisa demoníaca: a VERDADE.

– “O que é a verdade?” – perguntou-se ao Cristo. Ele disse “Eu sou a verdade”. A imprensa, como concorrente de Deus, tem também essa resposta, em forma tácita, sem qualquer direito absoluto, mas com a mesma soberba que fez Lúcifer ser defenestrado dos Céus.

Parece óbvio que é necessário esmiuçar os ingredientes ativos deste “produto-verdade”. A verdade midiática contém:

a) indutores de opinião

b) fumaça escura

c) anestésico social

d) dispersivo ou indutivo de conflitos

e) atrativos estéticos

f) erotismo e consumismo

g) conservantes de alienações

h) sobrescrevente cultural

i) q.s.p.

Como se quebraria este ciclo maligno? Abrindo os olhos do povo. Mas como, se a máquina-de-abrir-olhos, a educação popular, é manejada pela política, e a política é manejada pelo poder econômico, superestrato ao qual a imprensa pertence?

Bom, a esta altura podemos entender alguns fatos e fenômenos aleatórios pinçados na História do Brasil, e seus porquês:

a) Getúlio fomentou a criação do jornal Última Hora (de Samuel Weiner), por estrita necessidade de já então lutar contra as forças midiáticas que viriam a cavar a queda de Jango em 1964.

b) a Globo e as demais empresas de comunicação de massa OPERARAM em favor da Ditadura Militar iniciada com o Golpe de 1964. Ela admitiu isso abertamente, como forma de “estancar a sangria e seguir fingindo o reencontro com os interesses democráticos.

c) na democracia cenográfica a imprensa se comporta como um partido político; ela cria a “demanda popular” e ela fornece o político “ideal”. Foi assim com Collor. E faltou combinar atualmente com Bolsonaro.

d) o poder de indução da opinião pública pode por o Congresso e o Judiciário submetidos aos ‘canhões’ da imprensa.

e) diversas regiões do Brasil são ‘currais eleitorais’ de políticos coronelistas que se associaram às grandes emissoras, montando sucursais e retransmissoras, que é uma ilegalidade bem manobrada exatamente pelo poder econômico.

f) o “poder concedente” da comunicação social do Estado na prática resta nulificado; todo mecanismo público de comunicação social direta com o povo é mantido raquítico; mesmo mecanismos como rádios comunitárias sofrem um forte bloqueio burocrático, o que os impede de funcionar com espontaneidade criativa.

g) o maior partido trabalhista do planeta (PT) não tem nem 1 (um) walk talk. Esse purismo democrático ninguém tira dele. E quando Dirceu ameaçou o capital-imprensa, abriu a caixa de Pandora.

h) a internet é um ponto fora da curva, mas o controlismo já a ameaça no Brasil. Não nos iludamos com a “caça às fakenews”: isso é um ensaio para o cerceamento das liberdades. Os mecanismos de controle deveriam preservar a opinião, mas impedir apenas a simulação de pluralidade.

Encerro então com um desafio: como faremos a revolução? Com as armas prometidas na campanha do deputado protofascista ou com os 10% do PIB prometidos por Haddad à Educação Popular?

Não são apenas três refeições por dia

Três bens humanos têm primazia na escala de valores essenciais, tanto que são defendidos mesmo por instinto animal: a vida, a liberdade e a saciedade alimentar.

O contrário da vida é a morte; seu decréscimo, a indignidade. O contrário da liberdade é a prisão; seu decréscimo, o cerceamento. O contrário da saciedade é a fome; seu decréscimo é a desnutrição, em variáveis graus.

Por intrincadas condicionantes, os dois primeiros bens não são usufruíveis sem o terceiro, e vice versa. Por isso não se há de falar em democracia e civilidade onde houver inanição. Não se aproveita na plenitude a vida e a liberdade, sem o corpo saciado e sociável.

Por outro lado, aos poucos se desvenda que em ausência de sanidade física não há higidez mental, paz de espírito; e, na ausência de mente sã, sequer está garantido que o ser humano prezará com perfeita lucidez, pelos bens capitais – a vida e a liberdade. Vai-se assim à cotidiana barbárie.

Mas apesar desse arcabouço lógico, que faz constatar o óbvio, o debate sobre a suficiência alimentar como direito fundamental nunca esteve na pauta macropolítica dos governos, mesmo no mundo dito desenvolvido, na Europa (E. P. Trompson oferece uma das pesquisas históricas mais profundas sobre isso, em Costumes em Comum, pautando a fome no âmbito da economia moral, editado aqui pela Companhia das Letras).

As moléstias da desnutrição e da fome são flagelos que se mantém invisíveis, causando deteriorações como a baixa eficiência cognitiva, as restrições na produtividade manufatural e a alta susceptibilidade patológica. Educa-se melhor quem estiver alimentado; produz com maior qualidade agregada, quem melhor se nutre, e adoece menos quem tem garantido meios adequados de nutrição.

A fome e a má nutrição, sem dúvida, são causas e sintomas que afetam apenas uma classe. E por esta simples constatação, o tema não é de interesse dos estratos médios e altos da sociedade, mesmo dos países pobres, como o nosso.

O sistema alimentar, desde sempre, garantiu assim o predomínio de uma classe sobre as outras. E para isso nem será necessário amealhar fatos abundantes e redundantes na história antiga, desde os Assírios, Babilônicos e Chineses. Aliás, a Bíblia oferece um profícuo exemplo no caso do predomínio egípcio sobre os semitas (judeus).

No Brasil esse retrato estarrece mais, porque o curto tempo de nossa formação como povo de caracteristicas próprias condensa os fatos ao longo dois quais se pode separar claramente o predomínio da classe dos banquetes sobre a classe do farelo – os que tinham armazéns e conhecimento alimentar versus os que, mesmo em presença de certos alimentos e pouca terra, não dispunham do conhecimento teórico capaz de habilitar a novos cultivos, adaptações e beneficiamentos.

Assim foi que, muito recentemente, durante os anos 1990s, mesmo com a computação e a internet revolucionando o mundo corporativo, no Brasil ainda se morria de indigência e de fome, ou melhor, de degerenação orgânica e de complicações decorrentes da má nutrição.

Uma das capas da revista Veja, em 1998. Foca a fome na região mais socialmente precária do Brasil.

Uma das capas da revista Veja, em 1998. Foca a fome na região mais socialmente precária do Brasil.

Já nos idos do governo Fernando Henrique Cardoso, por força de um debate social que houvera sido levantado desde os anos 1980s, por Betinho, por setores católicos e pela esquerda (leia-se Darcy, Freire, Brizola e Lula etc), houve medidas tímidas, como o programa de que a primeira dama, D. Ruth Cardoso, era entusiasta.

Entretanto, apesar de dramas relacionados à desnutrição, como a mortalidade infantil, virem caindo em todo o mundo, desde o fim da Segunda Guerra, aqui os reflexos do recuo eram sentidos sutilmente apenas no Sul/Sudeste; no Norte e no Nordeste, mortalidade neonatal e infantil eram em padrão similar ao da Africa subsaariana. Raro era um casebre onde um filho não se tivesse perdido.

Foi contudo a partir da chegada de Lula ao poder, em 2003, que a ‘pobreza entrou no orçamento’. Já não era mais uma caridade subsidiada, sobre o que se dizia, que devia ser feita por ONGs e fundações; já não era um fundo de cena para socialites ostentarem suas vaidosas piedades.

Lula regulamentou a LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social, de 1992), criou o Ministério do Combate à Fome e à miséria, regulamentou seus dispositivos, fixou por atos oficiais as metas de combate à pobreza, orquestrando equipes técnicas multidisplinares de alta expertise na direção de combater o maior flagelo do Brasil – a fome causadora de mortes e de atraso social.

O combate à pobreza e à fome passou a ser reconhecido como DIREITO e POLÍTICA SOCIAL. Os orçamentos anuais, votados pelo Congresso, passaram a embutir 10 a 15 bilhões anuais para essa meta, distribuídos entre uma cesta de programas sociais hoje reconhecidos no mundo inteiro.

A situação de alguns grupos e indivíduos, cabe ressalvar, era tão grave – e ainda há um resquício disso – que alguns deles sequer possuíam status de civilidade e sanidade social mínimas, para encaixar-se em programas como o bolsa família, que exige burocracias, manutenção de cadastro, assiduidade escolar etc. Para segmentos como esse, foi criado o CRAS – Centro de Referência da Assistência Social (e o CREAS), voltados à atenção permanente.

Finalmente, números do IPEA, FGV, FAO e outras entidades nacionais e internacionais reconhecem que cerca de 53 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema e da indigência, em uma década, o que representou mais de 97% do total estimado.

Não se precisa ser um gênio acadêmico para compreender que o combate à fome, como política de Estado, busca resultados de curto, médio e longo prazos. Sabe-se que os males da fome tem desdobramentos sobre o quadro de migrações, de erradicões do meio social e da violência, e podemos estar ainda sob efeito daquilo que os sociólogos  e chamariam ‘geracoes perdidas’, por isso, de imediato, o fim da fome não reestabelece o desejado status de harmonia social.

O Risco que paira sobre nossas cabeças é exatamente o de que tais resultados mais complexos no tecido social nunca cheguem, pois, a política de austeridade fiscal, imposta pelo neoliberalismo, em favor do rentismo é da desigualdade, estão trazendo de volta a vida indigna, o cerceamento da liberdade e pondo em risco os programas sociais de base, contra a maldita má nutrição. ★

Capa da revista Veja, em 1998.

Capa da revista Veja, em 1998.

O Fascismo já está a caminho

1. Acreditar que essa incógnita chamada coloquialmente de ‘honestidade’ é a maior virtude de um político só pode resultar da ignorância epistemológica; justamente porque a honestidade – sem ter mesmo uma definição linguística precisa – é aspecto intrínseco à personalidade, somente sondável por um Deus. O que se pode checar, juridicamente, por exemplo, são a inocência e a moralidade pública. Sendo que, para isso, o povo e as instituições devem cumprir reciprocamente um pacto moral coletivista. 

2. A honestidade no ambiente político-administrativo se define, com menor margem de imprecisão, através do princípio constitucional da Moralidade. Esta pode ser estabelecida e mantida por meio dos controles internos e externos, sendo o judiciário o mais forte controlador, além de, pela cidadania ativa. 

3. No inquérito e no processo não se categoriza ‘honestidade’, mas sim ‘inocência’ – ausência de culpa ou dolo. Simplesmente porque, como dito, a subjetividade humana é mormente insondável: honestidade não é ‘coisa’ material, mensurável, é atributo, que sofre influência determinante de cada observador. Quando se vai aferir a temperatura de um corpo, é prudente fazer o esforço de calcar no zero-padrão a coluna de mercúrio do termômetro, já quando olhamos para julgar a honestidade alheia, nunca fazemos o preparo de nossa própria consciência.

4. Um exemplo do subjetivismo da honestidade: no meio contraventor, a honestidade se resume ao cumprimento do acordo interpartes: “se prometeu, tem que cumprir”. A ilicitude do objeto não importa. Por isso dizem que “até a máfia tem seu código moral”. Veja que aí, no âmbito da marginalidade, a moralidade pública é ignorada, mas há ‘honestos’, segundo o código interno… o “fio do bigode”.

5. Uma sociedade moralmente saudável não é aquela, pasmem, que não tem corrupção (imoralidade), por razões óbvias, para quem conhece as vicissitudes humanas. Mas é aquela em que: a) existe cultura de cidadania, b) existe controle mútuo entre instituições sólidas, e c), a reflexão ética sobre os papéis sociais é possível e incutida no processo de formação do indivíduo, nas mídias e na educação formal.

6. Temos no Brasil um tabu sobre a questão da moralidade pública, porque a sociedade, do mais pobre ao mais rico, assenta suas crendices numa honestidade utópica, escorada no moralismo religioso, machista, segregador, preconconceitista. O Brasil não inclui Ética na grade educacional (filosofia), porque ética e política são regatos do mesmo rio, e o autoritarismo de nossa cultura repugna a liberdade que advém da consciência política e da verdade.

7. Sobre as consequências finais de uma sociedade doente pela irreflexão e pelo moralismo vulgar: aí entram ranços de regimes totalitários, como fascismo, nazismo, stalinismo. A propaganda pré-totalitária vende o que sequer define com clareza, de modo que pessoas compram a utopia, como se fosse um terreno no céu. A honestidade fascista seduz, porque ela é comparável a um produto barato, que você compra, mas que nunca chega até seu domicílio; louva-se, mas não se experimenta. Depois que chega ao poder, o agente totalitário – o vendedor de ilusão – obstrui a transparência dos mecanismos de governo e poder, manipula valores sociais, e seus admiradores continuam venerando o que desconhecem. Assim ocorrem as torturas e os massacres. E, mesmo depois que se passa a conhecer enviesadamente a tirania, é tarde: se minorias são atacadas, não importa: somos maioria, “pessoas de bem” – pensa o moralista.

8. De acordo com Robert Gellately, Hitler não só divulgou abertamente as ações do governo, que assumira em agosto de 1934, como também conquistou amplo apoio popular para colocá-los em prática. “Ele não queria subjugar os alemães, mas conquistá-los. Para isso, polia os ideais germânicos, construía imagens populares positivas na imprensa e manipulava medos milenares”. (‘Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista’, livro cujo trecho foi citado pela Veja). Ora, o caminho de Hitler foi sedimentado pelo moralismo difuso, desde o término da Primeira Guerra Mundial, nada foi abrupto.

9. Finalmente, vivemos no Brasil, depois da explosão dos meios de informação claramente antidemocráticos, um surto de moralismo, de clamor pela honestidade – talvez poucos saibam ou executem o clamor pela Moralidade pública através dos meios próprios. Seu traço marcante, do moralismo difuso, é a simplificação das mazelas sociais a um simples caso que pede imposição da ordem, pela força ( – deite de volta no túmulo, Stalin, não estou falando de você).

10. Um segmento social ignorante dos aspectos sociológicos da política (v. 6) e epistemologicamente cego, defende candidatos extremistas, violentos e cínicos. Obviamente, no poder, esses sofistas sem qualquer base intelectual, humanística ou altruística, vão atacar o próprio povo, coisa que já estão fazendo: todos os candidatos de direita apoiam Temer, sem que este tirano, sem voto, tenha movida uma pena contra o problema número 1 dos moralistas – a desonestidade. Pelo contrário: Temer foi flagrado sendo corrupto. Ou seja, o Fascismo já está está a meio caminho. A cegueira comprova está tragédia. •

Vendedores de ilusão

A imprensa brasileira se consolidou como um meio de convencimento das pessoas sobre a tese de mundo acreditada por seus patrões. Difere-se de outras imprensas do mundo, pelo aspecto dissimulatório de uma falsa isenção.

A imprensa não é a voz majoritária, não traduz a realidade ‘pura’: reproduz a percepção dos donos do poder vertida para o linguajar comum. Se um membro da família Frias ou Marinho se assentasse na bancada do telejornal, para dar sua opinião classista, nua, os sóbrios vomitariam. Claro, se este modelo de imprensa ainda deixasse sóbrios entre os espectadores.

Na tarefa de convencer, fatos de apelo popular são escolhidos, como quem escolhe o queijo que mais apetece ao rato; e estes são temperados com conceitos e valores da classe dominante. Repare que não está se ressaltando o papel do jornalista, empregado, mas dos mecanismos editoriais. O resultado então é que o oprimido, por “coincidência”, vitima de uma identidade simulada, concorda com o opressor. 

Este é o ponto em que o ciclo parece estar completo: há opiniões formadas, e opiniões que se denominam “livres”, fundadas na liberdade de acesso à informação, direito humano, tutelado pela Constituição, defendido pela “moralidade pública”…

Mesmo pessoas letradas defendem essa “liberdade de comunicação”, que na realidade é tão só a liberdade de oprimir etereamente por meio de estratégias empresariais e políticas, pois o culto da liberdade foi outra coisa usurpada do povo: no fundo, a imprensa tradicional nunca foi livre, em sentido latu, nem quer sê-lo – ela quer estar desempedida, para escolher seu senhor que não é o povo, é a classe que vende o produto com a maior margem de lucro do  universo: a ilusão. •

Intromissão de um observador empírico no tema em que a ciência diverge, com ganhos para o… capital

Sempre desconfiei dessa tese de que devemos comer uma infinidade de alimentos em quantidades ‘x’: se somos onívoros, isso significa que ‘podemos’, e não ‘devemos’, comer de tudo. Ora, será que ‘evoluiríamos’ biologicamente para pior, para a complexificação, em vez de para a simplicidade?

Lembro que uma vaca pode alcançar mais de 20 arrobas de tecidos, tão complexos quanto os nossos, comendo basicamente um tipo de vegetal… Não é isso que a indústria fitness, por exemplo, encoraja… 

Para ela, daqui a pouco o sujeito deverá comer músculo humano, para ser um humano musculoso, como se o laboratório químico que somos estivesse emburrecendo nessa jornada de evolução, com zero capacidade de transformação…

Mas deixa isso para lá, por enquanto, até que a idade média do capitalismo-consumista seja enterrado na História.

Sobre alimentação também, tenho estado intrigado mais ainda ultimamente, porque estivemos vendo, a partir da expansão econômica que sucedeu a Segunda Guerra, um discurso de que se deve comer de três em três horas. Isso virou um mantra da Nutrição e da Medicina, especie de religião geral.  E quem contrariasse, como eu, era tido como verdadeiro herege.

Agora, pasmem, noto uma onda inversa, defendendo que comer de 3/3h é uma loucura: o corpo precisa de intervalos de repouso; o aparelho digestivo precisa de ter “um tempo só para ele”, excretar, etc etc. Vejo também teses e teses sobre os efeitos milagrosos do jejum, coisa que há 20 anos depreciariam qualquer ‘especialista’.

O que quero dizer em suma, não é afrontar a ciência – que desconheço metodologicamente – mas valorizar a percepção empírica, que, muitas vezes, a sociedade pós-positivismo, soterrou. Mesmo o que nossas tradições consideravam premissas, a modernidade contrariou. Demonizaram o ovo, as gorduras animais, o leite, os carboidratos, etc, deixando que a indústria introduzisse ‘customizações’ de segurança questionável no lugar, através da propaganda.

Afinal, se a corrente higienista se difundir, contra todo o lobby da indústria alimentar, nada poderemos fazer para salvar o mundo da epidemia de obesidade e de acidentes vasculares que atravessa, com a velocidade necessária. Esses males têm estrita relação não apenas com os hábitos de atividades, mas especialmente com a dieta – e isso quem diz é a ciência, em raro acordo com a história humana.

Ressalto por fim que as informações, mesmo quando referendadas pelos papados científicos do Ocidente devem ser temperadas à luz de nossas tradições históricas. Muitas vezes vamos longe buscar as respostas que já estão sob nosso nariz. •

Ódio racial tem raiz econômica

O preconceito cotidiano é subproduto capilarizado do ódio

A era contemporânea se ufana da influência grega, passados dezenas de séculos, na arte, na política, na poesia etc. Os juristas por sua vez destilam os traços romanos no moderno Direito, assim como a academia está sempre reverenciando as heranças árabe e egípcia na Matemática, babilônica, na escrita, etc, de modo que é impossível algo puramente original na arquitetura, na filosofia, na dramaturgia… entre outras atividades humanas.

Agora pasmem: nossa moral reacionária repele qualquer insinuação da influência escravagista em nossa sociedade atual, mesmo que o nefasto sistema de exploração do homem esteja há pouco mais de 100 anos de nós. Para rechaçar a reflexão histórica, até se criou um neologismo – “vitimismo” –, que significa “tratar minorias como vítimas”. Isso em si é sinal do próprio racismo que demonstro ao fim desse artigo. Senão, vejamos a raiz do ódio.

Um escravo saudável e dócil, em 1870, já debelado o tráfico a quase zero, custava 1 conto de réis (Rs 1:000$000)*, que atualizado equivale a aproximadamente R$ 25 mil reais. Portanto, com R$ 1 milhão hoje, você compraria 40 escravos hoje (o cálculo é meu).

Abolicionistas moderados toleravam a tese de que o Estado devesse pagar uma eventual “desapropriação”, com a cessação da escravatura. E a Lei do Ventre Livre (Lei 2040/1871), por conseguinte, previu indenização de 0,6 conto de réis (600$000: seiscentos mil réis) ao senhor que se dispusse  a abrir mão dos serviços do nascido-livre, antes dos 21 anos, pois antes dessa idade, e da emancipação total que vinha com ela, o filho da escrava era só abstratamente ‘livre’ desde o nascimento.

Mas alguns abolicionistas questionavam o porquê de, após sucessivos avanços na tendência de se abolir o cativeiro de negros, em vez de os senhores desativarem a prática escravista gradualmente, cada dia mais estavam dispostos a pagar preços maiores.

O preço foi sendo inflacionado na medida em que crescia a pressão exterior contra o tráfico humano e se editavam leis restritivas, e chegou a 3 contos de réis (75 mil reais), em São Paulo, depois de 1871, ano da Lei do Ventre Livre.

De todo modo, a grande classe escravizadora não foi surpreendida pela Abolição, em 1888, mas aqueles que se fiavam no status de privilégio, na impunidade e na burla, tiveram, de seu ponto de vista, grandes prejuízos. Neste contexto está a raiz do ódio racial e classista, latente no alto estrato econômico da sociedade da época.

Ressalte-se que o racismo, como disse exaustivamente Darcy Ribeiro, diferente do ódio crônico, é difuso e impregna mesmo mestiços, que sofreram o peso da imersão cultural nos preconceitos. Não é raro ver atualmente mesmo negros racistas, muitas vezes com preconceitos em forma de posturas negativas, moralistas, anti-afirmativas.

Mas o ódio tem viés ECONÔMICO – essa é a chave da questão. Tem um filão distinto; vive num subterrâneo, subconsciente, prestes a atacar toda vez que o Estado tende a sair debaixo de suas esporas e a olhar o escravo mal liberto.

Também não nos esqueçamos de que o ex-escravo deixou de dever a liberdade ao senhor e passou a devê-la ao Estado, a quem paga suavemente em forma de impostos sobre bens tão singelos quanto o pão e água. Estudiosos comprovam que a massa pobre (mestiça) paga mais impostos do que os ricos, não por acaso…

Outra forma de ataque do ódio é quando o Estado se foca em políticas anti-racistas: no fundo o pavor das elites é que o castelo de sua pseudo-superioridade seja logo mais abalado, caso o exército de racistas difusos seja debelado.

Por fim, chamo atenção para o cuidado de, mesmo se tendo a alma e a genética dos explorados, não engrossar a camada de racistas brandos, que, em vez de cobrar a dívida do Estado – e da alta sociedade – com o negro, tendem a legitimar a dívida profana que a Nação teria com aqueles contraventores, escravistas reacionários.

___________
* Fonte: Joaquim Nabuco, ‘O Abolicionismo’.

Religião Orgânica

Perguntam-me se ensino religião a meus filhos. Digo não. Ensino amor, compreensão, fraternidade e justiça. Assim como na tenra idade não se ensina sobre lavoura, mas sobre frutas e frutos; nem sobre apicultura, mas sobre mel… E se um dia houver no mundo uma fé que cultive o amor, os altos valores existenciais, assim poderá ter a adesão ou a estima dos meus filhos. 

Intrigado, alguém já foi adiante e perguntou se ensino sobre Deus a meus filhos. E eu disse não. Insisti que: se eles apreciarem a rigor o fruto, conhecerão certamente a árvore; e ao conhecer a árvore, saberão sobre as mãos que a cultivam; e, se reverenciarem a engenhosidade do cultivo, considerarão sagrado o trabalho, sagrada a sabedoria, sagrada a terra; e, se considerarem a terra, o homem, o trabalho, a sabedoria e o fruto sagrados, certamente se perguntarão sobre a Grande Mente, que deve mover o universo, da qual o próprio homem deve ser fruto. •••

Milagre

Em sua limitação de consciência, a criança é onisciente. Em sua limitação de percepção espacial, é onipresente. E, como sequer cogita de riscos mais complexos do que o alcance sensorial, como não tem maiores temores: a criança é oniponte! Lidamos na verdade com um demiurgo – um pequeno deus, e resulta que lhe apresentar a grandeza incontinente da Natureza é provê-la de limites, de riscos controlados, de temor pelo insondável; é dotar seu ego-deus, da humildade inexorável, da doçura necessária. Crianças que não sejam submetidas à grandeza da natureza serão impolidas e soberbas; quem não respeita um velho arvoredo não respeitará um velho homem, nem um velho cão… O mundo da criança é assim o mundo prenunciado do adulto, reduzido à pequena escala: levar sua menina ao jardim, é o mesmo que ir você a um bairro a que nunca foi; levar sua menina a outro bairro equivale às suas férias na Capadócia. Parece absurdo, mas é a escala do pequeno deus: uma lagartixa soará à criança algo mais grandioso do que um dinossauro nos pareceu pela primeira vez. Muitos de nós anseiam por operar milagres, mas há cotidianamente este poder em nossas mãos: nós podemos, com poucas palavras, poucos exemplos e poucas distâncias, fazer de um pequeno ser bruto, um Ser Humano.

Foto: Alessandri Adriano, 2017.