Eu sou principalmente contra o aborto pós-parto; aquele que estagna a manutenção de um direito já sentido, já semivivido. Sou contra o aborto transmitido aos 3 anos e consentido aos 15, por uma educação desumanizadora e pela sociedade desalmada, atroz, que não ensina o justo querer, o equilíbrio holístico entre vontade e necessidade.
Sou contra o abortivo desligamento entre as pessoas e a natureza, que, no fundo, é retirar os filhos dos braços de sua mãe. Quanto a isso, vivo me esquivando dos bisturis genéricos e ostensivos.
Sou contra. Luto contra. Combato esses suaves e deletérios abortos do jovem no pico narcótico, nos volantes e punhos da morte. Aborto de ventres intoxidados pelas drogas alimentícias, agrotóxicos, conservantes e ultrajantes, licenciadas pela insana guerra da busca ao lucro, para financiar a… longevidade!
Sou contra o assassínio do homem exaurido nas grades do trabalho, cuja exploração o impede de também nascer para o autoconhecimento.
Sou contra o aborto da arte inata no gesto do menino mestiço, que o impede de sentir-se menino negro apenas com menos melanina. Porque matar a arte é extinguir o abstrato elo entre o ser e o mundo, e o ser em si é apenas este sugesto abstrato, sem moeda e sem cor.
Sou contra o aborto das capacidades críticas, das possibilidades místicas sensatas e ecológicas; contra a prisão estereotípica em padrões comportamentais e estéticos.
Meu ofício é o combate ao aborto pela inanição e pela pseudonutrição, causadas na insolência do poder excludente, que opta por lucrar na doença em vez de promover a gratuita saúde.
Pensando bem, sou contra o aborto dos nossos idosos! Nas filas, nas ermas cadeiras esfiapadas dos sanatórios e des-abrigos; eutanásias mudas nos olhos pasmos, abandonados pelos abortos-vivos da revolução sexual.
E sou contra tudo isso, para então proteger o feto.
Búzios, 12/10/2009



