Que o novo ano despontando adiante seja fecundo de percepções novas, de humanidades afloradas e sensíveis. Colo aqui abaixo um poema, hino da indignação de Pablo Neruda, contra a hipocrisia e os males da guerra.
Almeria
Um prato para o bispo, um prato triturado e amargo,
um prato com restos de ferro, com cinzas,com lágrimas, um prato submerso, com soluços e paredes caídas,
um prato para o bispo, um prato de sangue da Almeria.
Um prato para o banqueiro, um prato com caras
de meninos do Sul feliz, um prato
com detonações, com aguas loucas e ruinas e espanto,
um prato com eixos partidos e cabeças pisadas,
um prato negro, um prato de sangue da Almeria.
Cada manhã, cada manhã turva de nossa vida
o terás fumegante e ardente na vossa mesa:
o afastarás um pouco com vossas suaves mãos
para não ve-lô, para não digeri-lo tantas vezes:
o afastereis mais um pouco entre o pão e as uvas,
a este prato de sangue silencioso
e que estará alí, cada manhã, cada manhã.
Um prato para o Coronel e a esposa do Coronel,
numa festa da guarnição, em cada festa,
sobre os juramentos e os cuspes, com a luz de vinho da madrugada
para que o vejais tremendo de frio sobre o mundo.
Sim, um prato para todos vós, ricos daqui e de lá, embaixadores e ministros, comensais atrozes, senhoras de confortável chá e pronuncia:
um prato destroçado, transbordado, sujo de sangue pobre,
para cada manhã, para cada semana, para jamais,
um prato de sangue da Almeria, diante de vós, sempre.
De Pablo Neruda



