Amanhece enquanto atravesso a ponte sobre a Guanabara, no sentido Rio. O sol parece lançar toda a poluição da Baía para baixo de um tapete azul-pratado. Ali mais à frente, na Zona Portuária, às vezes não se consegue facilmente distinguir um homem caído no canto do passeio, de um bocado de lixo. Essa poluição o clarão não ofusca… Em uma praça próxima da igreja – monumental e histórica – outro mendigo ainda dorme enroscado às raízes de um ipê amarelo, vazado na copa pela tragicômica luz diurna. Fica ao “humor” de quem o observa entendê-lo como uma serpente ou uma porção de esterco fertilizante. Certo é que jaz ali, de modo que sua morte seria um favor para aquela vegetação pobre de matéria orgânica.
O “progresso” por vezes avança tão inexoravelmente que deixa o humano nas gretas do caminho. Ali ele padece esquecido, tranlúcido. Vaga até gastar-se, nem sei se chega a ser um registro de cartório, que, de qualquer forma “prescreveria”, minimizando o “entrave paisagístico” que são.
Também se vê a presença indigesta como uma espinha atravessada na garganta do padre, que apregoa a “justiça de Deus”. Vem da catedral uma voz deslocada, desarmonizada com o teor do mundo; sugere que salvar a alma seja dádiva maior que redimir da podridão, aquele soçobrado corpo… Eu, agnóstico, vagueio sempre espectante por essas ruas; caminho como indo para longe do deus dos homens – este que me parece feito à sua imagem, por mãos sujas de complacência, insensibilidade e injustiça.



